Icarahy Memória
(Fotos de Manoel Bastos, final da década 1950)
“Icaraí,
Que vem desde a Itapuca
Até a subida da Fróes
Icaraí,
Os poetas já não fazem mais Nictheroy
Canto a beleza, lembro o Gentileza
Histórias de rir.
Quanta Saudade
O meu peito invade do Petit Paris
Eu sei que o tempo não volta
Que o Trolley faz volta no Canto do Rio
E nas areias sereias olhando o Rio
Eu sei que o tempo não volta
E o Trolley faz volta no Canto do Rio
E nas areias, a melhor vista do Rio.”
(Cilico, compositor)
Conheça, nesta seção, histórias pitorescas, locais interessantes sobre o bairro de atuação do nosso clube. Se você conhece algum fato curioso ou tem alguma foto significativa de Icaraí, escreva-nos. Sua contribuição é muito importante para nós.
Veja, no sumário abaixo, os capítulos que falam sobre Icaraí e que já conseguimos colecionar.
Sumário
Prefácio
A título de apresentação…
Capítulos 1 a 32:
1. Hotel Balneário Casino Icarahy
2. O Trampolim
3. Plano urbanístico de Icaraí
4. Praça Lusitânia
5. Praça Getúlio Vargas
6. Logradouros – Nomes
7. Cinemas antigos
8. Bondes
9. Asilo Santa Leopoldina
10. Residências e comércio
11. Topografia
12. Pedra da Itapuca
13. Igreja de São João de Icaraí
14. Toponímia
15. Campo de São Bento
16. Regatas
17. Fotografia
18. Álbum
19. Icaraí por Parreiras
20. Igreja de São Judas Tadeu
21. Clube Central
22. Dados estatísticos
23. Novas fronteiras e bairros vizinhos
24. Estádio Caio Martins
25. Gavião Peixoto
26. Presidente Backer
27. Lopes Trovão e Mariz e Barros
28. Os ingleses em Icaraí
29. Dr. Paulo César
30. Água e esgoto
31. De jornalistas e poetas
32. As ruas Otávio Kelly, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Belisário Augusto
Referências bibliográficas
Relação de alguns logradouros de Icaraí com suas denominações antigas

A Praia de Icaraí na década de 1950.
Prefácio
Icarahy Memória
Redescobrir os perfis de uma cidade através de seus pontos históricos consiste num exercício de notável sensibilidade. Refazer os caminhos de outrora, percorrer as veredas do passado embevecidos pelas recordações de outros tempos significa flagrar “a encantadora alma das ruas”, segundo João do Rio, célebre cronista carioca.
As cidades possuem características reveladoras de suas trajetórias históricas, indícios que demonstram as várias fisionomias assumidas pelas mesmas ao longo de sua formação. Assim sendo, podemos ressaltar que o simples ato de andar por sítios da cidade de Niterói, aparentemente familiares aos nossos olhos, pode significar a redescoberta das insígnias do passado, por vezes explícitas, por vezes subjetivas e tênues.
O indivíduo que observa perplexo a devastadora marcha do tempo e as abruptas modificações paisagísticas em sua cidade, muitas vezes nem sequer percebe a superposição de ocupações urbanas, ambiências, estilos, odores, ecos e reminiscências dos tempos de outrora. Com isto, o resgate da memória local evoca uma participação comunitária na construção da história de um povo.
A presente coletânea “Icarahy Memória” elaborada pela diligente pesquisadora Brigitta Grundig Monteiro, representa uma louvável iniciativa no sentido de difundir o conhecimento histórico não somente nos círculos rotários, mas também no contexto da sociedade niteroiense, tendo como ponto focal a crônica de costumes de um dos bairros mais ecléticos de nossa cidade.
Em suma, convém mencionar que a leitura de “Icarahy Memória” significa a possibilidade do encontro entre o cidadão e o seu bairro, viabilizando a valorização consciente do patrimônio histórico e ambiental, bem como favorecendo a criação de uma sociedade mais fraterna e democrática.
Outono de 1996
César Augusto Ornellas Ramos
Professor e Mestre em História
A título de apresentação…
A idéia de se produzir a presente coletânea surgiu a partir das pequenas matérias históricas publicadas nos boletins semanais do Rotary Club de Niterói Icaraí, com o objetivo de contar um pouco da história da formação do bairro, área de atuação do clube e onde são realizadas as suas reuniões.
O fato de Icaraí ser um bairro tão ambicionado para local de moradia não se explica somente pelo momento presente. O momento atual é conseqüência direta de um longo processo de formação urbana e social da comunidade niteroiense que teve seu início na fundação da Cidade.
Tudo o que encontramos hoje no bairro – o seu traçado urbanístico em forma de tabuleiro de xadrez, as praças, o tipo e a localização do comércio, o próprio estilo de vida, comportamento e hábitos de seus moradores – tudo tem a sua razão de ser.
Pesquisas em livros, fotografias ou depoimentos dos moradores mais antigos são fontes riquíssimas para se buscar o passado e se encontrar a identidade de uma sociedade…
O presente trabalho não tem outra pretensão senão a de dar uma rápida “pincelada” nesse passado tão rico e esclarecedor do bairro chamado Icaraí e de despertar o interesse eventualmente adormecido de seu morador pela memória da cidade. Serve, também, como ponto de partida para um mergulho mais profundo na história do bairro, que o próprio morador está ajudando a escrever.
Por fim, mas não por último, gostaríamos de externar nossos sinceros agradecimentos a Cesar Augusto Ornellas Ramos, historiador, e Adelino Capella Pinheiro, editor, que enriqueceram sobremaneira o presente trabalho com o seu conhecimento e permanente estímulo.
Brigitta Grundig Monteiro
Capítulos 1 a 32
1. Hotel Balneário Casino Icarahy
Foi numa terça-feira, 30 de abril de 1946, que as roletas dos cassinos no Brasil pararam de girar.
Entre os grandes e os mais elegantes daquela época, sem dúvida, encontrava-se o Hotel Balneário Casino Icarahy. Com 107 apartamentos, duas quadras de tênis, dança, música e muito jogo, o prédio em estilo Art Déco foi construído no local onde antes havia um palacete residencial de três andares datado de 1916 (v. foto à direita).
O Casino Icarahy já foi ponto importante na vida noturna da cidade. Seus shows eram concorridíssimos, pois apresentavam-se em seus salões os maiores astros da época: Josephine Baker, Pedro Vargas, Carmen Miranda, Grande Otelo, Francisco Alves entre tantos outros.
Desde 1967, o prédio abriga a Reitoria da Universidade Federal Fluminense. Mas nem por isso perdeu a sua vocação de lazer e entretenimento: o Cine Casino, antigo salão de jogos, atualmente funciona como cinema e o Cine Grill é ocupado pelo Teatro e pela Galeria de Arte da UFF.
2. O Trampolim
Em 1936-37 a Prefeitura construiu, a alguns metros da Praia de Icaraí, em frente à Rua Lopes Trovão, um trampolim em concreto armado.
O projeto foi executado com o apoio da imprensa local, de clubes desportivos e de particulares.
De forma elegante, imitando um pássaro de asas abertas, o trampolim foi erguido em substituição a um antigo de madeira, localizado próximo à então praça Jaú (atual Praça Getúlio Vargas) e que se encontrava em ruínas, oferecendo perigo aos usuários.
Depois de uma forte ressaca, as ondas levaram areia para debaixo do novo trampolim, inclinando-o em dez graus. O trampolim virou sinônimo de perigo e só os mais corajosos se atreviam a dele saltar. Apesar das várias tentativas de consertá-lo, tudo voltou à estaca zero em 1945, quando o engenheiro encarregado saiu da Prefeitura.
Permaneceu abandonado até a sua demolição em 1964.
3. Plano urbanístico de Icaraí
Quem vê o paredão de concreto na Praia de Icaraí, não imagina que até 1840 a área, atualmente abrangida pelos bairros de Icaraí e Santa Rosa, era apenas um extenso areal, coberto por pitangueiras, cactos e vegetação rasteira. São João de Icaraí, criada por Alvará de 1696, consistia em uma das seis freguesias do antigo município de Niterói.
No início do século XIX, localizava-se ali a fazenda Icaraí de propriedade de Estanislau Teixeira da Mata. A fazenda era alcançada por mar, por meio de desembarcadouros, e por terra, pelo caminho que vinha da antiga Praia Grande (atual Centro de Niterói).
Somente em 1840-41 Icaraí recebeu o Plano de Arruamento, projeto de autoria do engenheiro francês Pedro Taulois, a pedido do então presidente da Província Visconde de Uruguai. O Plano consistia não só do traçado das ruas em forma de tabuleiro de xadrez. Incluía, também, demarcação e nivelamento das novas ruas, correção viária do antigo caminho de acesso ao bairro, o Caminho do Calimbá (trecho da atual Rua Marquês de Paraná), transformando-o em rua; fora outros melhoramentos.
Dando início à abertura das novas vias, os engenheiros encontraram resistência por parte de alguns moradores, fazendo com que várias ruas fossem abertas somente em 1854.
Hoje o bairro de Icaraí significa um estilo de vida e oferece uma série de serviços à população: cinemas, teatros, galerias de arte, comércio variado, restaurantes; sem falar na feira de artesanato, nas praças e no famoso Campo de São Bento.
4. Praça Lusitânia
No fim da Praia da Icaraí, quase chegando à Igreja de São Judas Tadeu, bem em frente ao Restaurante La Mole (antigo local de reuniões do nosso clube), situa-se a Praça Lusitânia.
Para quem não sabe, esta obra recorda um feito célebre. Ajardinada na década de vinte, foi construído nessa praça um pequeno obelisco sobre uma escadaria de granito, terminando por uma esfera, sustentando uma cruz de malta. Numa das suas faces há uma placa explicativa de bronze, dizendo: “Monumento comemorativo da primeira travessia do Oceano Atlântico de Portugal ao Brasil, pelos aviadores portugueses Capitão-de-Mar-e-Guerra Sacadura Cabral e Almirante Gago Coutinho. 1922.”
Nas imediações da praça, a caminho de uma antiga ponte, existiu entre frondosas amendoeiras um pavilhão com serviço de bar.
5. Praça Getúlio Vargas
Localizada em frente ao Cinema Icaraí e ao prédio da Reitoria da Universidade Federal Fluminense, a Praça Getúlio Vargas já teve outras denominações. O Jardim de Icaraí – primeiro nome dado à praça – surgiu nos idos de 1877, construído junto à praia, entre as ruas Miguel de Frias e Álvares de Azevedo. A obra foi custeada por subscrição entre os moradores, e ao governo provincial coube a construção da muralha do cais e o assentamento do gradil em torno da praça.
Em 1909, o Jardim sofreu as primeiras modificações, sendo inaugurado um monumento – uma galera de bronze sobre um bloco de granito – onde se lê: “Prefeitura de Niterói. Cais e Avenida Icaraí mandados executar pela Prefeitura no ano de 1909, sendo Presidente do Estado o Exmo. Sr. Dr. A.A.G. Backer e Prefeito o Engenheiro Civil João Pereira Ferraz.”
Já em janeiro de 1927, foi instalado um busto de Antônio Parreiras, executado por um escultor francês de Paris, e, em julho do mesmo ano, a partir de um monumento em homenagem aos primeiros aviadores que atravessaram o Atlântico Sul, o jardim passou a se chamar Praça Jahu. Finalmente em 1940, após demorada remodelação, a praça recebeu o seu atual nome, quando foi inaugurada uma herma ao Getúlio Vargas, com a inscrição: “Niterói ao Presidente Vargas.”
6. Logradouros – Nomes
“Estão querendo mudar o nome da Moreira César!” A reação da população a essa proposta – contra ou a favor – reacende uma velha polêmica sobre a validade ou não da mudança de designação de logradouros com nome já mais do que consolidado, somente para prestar homenagens a alguma personalidade ilustre. Freqüentemente tais alterações causam grandes perturbações entre os moradores, e, pela simplificação ou por não lhe agradar a nova denominação, continuam a usar o nome primitivo.
Citamos alguns exemplos: a antiga rua Barros hoje se chama Rua Ministro Octávio Kelly; o tão conhecido Campo de São Bento é oficialmente o Parque Prefeito Ferraz.
Voltando a meados do século passado, encontramos nomes para as ruas de Icaraí bastante curiosos, por vezes até poéticos: rua da Aclamação que hoje é a rua Gen. Pereira da Silva; rua Santa Bibiana, a rua Joaquim Távora; a rua Cabral é a atual rua Tavares de Macedo; a rua da Constituição, a rua Miguel de Frias; a rua do Sousa, a atual rua Gavião Peixoto e a rua Vera Cruz, a atual rua Cel. Moreira César, entre tantos outros.
Sabemos, contudo, que essas mudanças se justificam pela própria dinâmica da cidade, em constante mutação.
7. Cinemas antigos
Bem no final do século XIX, exatamente no ano de 1897, estreou o cinema em Niterói. Icaraí não ficou atrás. Mesmo sendo naquela época um bairro quase desabitado, surgia, alguns anos mais tarde, em 1907, o Cinematógrafo Icarahy ao ar livre, em pleno Jardim de Icaraí (hoje Praça Getúlio Vargas).
De propriedade de Humberto de Lima, o Icarahy usava energia elétrica cedida pela Companhia Cantareira e Viação Fluminense, que procurava, assim, aumentar o número de passageiros nos bondes.
Os programas dos espetáculos eram distribuídos nos cinemas em locais de grande movimento e por vezes encartados em jornais niteroienses. Eram exibidos, nada mais, nada menos que cinco filmes por dia – às vezes até doze (!) – de curta metragem. Constava, também, do programa, quando a fita era “falante” e, no rodapé, vinha o nome da orquestra. Muitos músicos, que mais tarde se tornaram famosos, iniciaram sua carreira ali.
Mas, apesar do grande entusiasmo em relação à nova diversão, havia algumas pessoas que não deixavam escapar certos detalhes. Saiu publicado no semanário Niterói, de 17/7/1910, o seguinte artigo: “O cinematógrafo tem, naturalmente, defeitos. Apresenta-nos fitas cômicas, sem graça nenhuma, dramáticas estúpidas, históricas que são verdadeiras ‘histórias’, mas tem em compensação grandes méritos. É barato. É cômodo. É democrata como o bonde. Quando a gente não ri nem chora durante a sessão, traz pulgas para casa com que rir ou chorar…”
No final de 1916, início de 1917 funcionou em Icaraí o Cinema Icarahy, junto ao Jardim em bem montada casa. No entanto, o atual Cinema Icaraí nada tem a ver com o de 1916. Este último foi inaugurado na década de quarenta em prédio novo, com as características arquitetônicas e decorativas daquela época.
8. Bondes
Niterói conheceu o bonde ainda de tração animal em 1871, estando entre as sete primeiras cidades do país que contavam com tal melhoria.
A primeira concessão foi dada ao Ten. Cel. João Frederico Russel, nome bastante conhecido no Rio de Janeiro no setor de esgotos sanitários, e ao engenheiro Américo Tomás de Castro. Em outubro do mesmo ano a Companhia Ferro Carril Nictherohyense inaugurou a primeira linha que saía da estação das barcas de São Domingos (localizava-se próximo à Officina Rodrigues Alves, prédio ocupado atualmente pelo Mercado Cantareira), passava pelos bairros do Ingá e Icaraí, terminando junto ao Morro do Cavalão.
A Ferro Carril expandiu-se muito, tornando-se em 1877 a empresa Trilhos Urbanos de Nictheroy, do Comendador Domingos Moitinho.
Em 1905, Dr. Nilo Peçanha, presidente do Estado do Rio, então em seu primeiro governo, pressionou a Companhia Cantareira para que transformasse o sistema animal em elétrico.
As obras de melhoria criaram grande expectativa na população, fazendo com que o povo comparecesse em massa à cerimônia de inauguração, realizada no último dia de mandato do Dr. Nilo Peçanha, em 31 de outubro de 1906.
Saindo da Praça de São Domingos (atual Leoni Ramos), o bonde presidencial percorreu o Ingá, contornou o litoral até Icaraí até o final da Praia de Icaraí, retornando pelo mesmo caminho, subindo, depois, a Rua da Constituição (atual Miguel de Frias).
Os bondes funcionavam regularmente até bem pouco tempo, quando foram retirados definitivamente de circulação.
9. Asilo Santa Leopoldina
Dentre as instituições filantrópicas tradicionais de Icaraí existentes até hoje, está o Asilo Santa Leopoldina.
Criado no século XIX pelo Vice-Presidente da Província, João Pereira Darrigue de Faro, em substituição ao Presidente Luiz Antônio Barbosa, o Asilo inicialmente ocupou um prédio junto ao Largo da Memória (atual Praça Gen. Gomes Carneiro, conhecida por nós como Rink), com a finalidade de “abrigar, educar e instruir meninas órfãs”. Estiveram presentes à solenidade D. Pedro II e D. Teresa Cristina, seus protetores.
Em 1856 foi levado o Santíssimo Sacramento, em procissão, à nova sede, também provisória, na Rua da Praia (aual Visconde do Rio Branco). Nessa ocasião, houve exposição de trabalhos manuais das internas.
Pouco antes, em 9 de agosto de 1855, foi lançada a pedra fundamental da sede definitiva, na Rua da Constituição (atual Miguel de Frias). Após longo período de obras, o prédio novo foi, finalmente, inaugurado em 15 de janeiro de 1864, onde permanece até hoje.
Entre seus provedores destacou-se José Júlio Pereira de Morais, o Visconde de Morais.
O Asilo também foi visitado por personalidades ilustres, como o Frei Francisco do Mont’Alverne, “honrado por um rei e dois imperadores e acatado pela autoridade eclesiástica como oráculo da ciência.” Já no início deste século, no dia 31 de outubro de 1906, as internas deram vivas ao Presidente da República, Rodrigues Alves, quando da inauguração dos bondes elétricos em Niterói.
Junto ao Asilo, administrado por religiosas da Ordem de São Vicente de Paulo, funcionam, atualmente, o Colégio São Vicente de Paulo e a Capela de Santa Leopoldina (v.foto).
10. Residências e comércio
A finalização das obras em Icaraí do Plano de Arruamento de 1840-41, a implantação dos bondes e da iluminação pública à base de energia elétrica, entre outros melhoramentos introduzidos, foram trazendo pouco a pouco no início do século passado, famílias de nível econômico mais elevado para fixar residência no bairro. Já naquela época a Praia de Icaraí atraía grande contingente da população de Niterói para o banho de mar terapêutico.
Surgiam residências “elegantes e esmeradas, de vários estilos, com jardins bem cuidados e de bom gosto, embora algumas um pouco extravagantes.” As construções se localizavam principalmente à beira da praia. Porém havia muitos casarões pelo interior do bairro que pertenciam a capitalistas, grandes comerciantes, profissionais liberais, diretores de empresas nacionais e estrangeiras, políticos e industriais do Rio e de Niterói.
Eram conhecidas as residências da família Miguelote Viana (Rua Gavião Peixoto 250), de Armindo de Morais (Rua da Regeneração 116, atual Otávio Carneiro), de Henrique Mutzenbecher, Hermann Bekenn, Antônio Monteiro de Queirós, Dr. Afonso Abreu Lima, Dr. Antônio Pedro Pimentel (este último, fundador da Faculdade Fluminense de Medicina), todas situadas na Praia de Icaraí.
Havia, também, um pequeno comércio – emergente ainda – no interior do bairro, principalmente ao longo da Rua Gavião Peixoto, onde hoje se encontra a maior concentração comercial de Icaraí.
Como se vê, muitas das tradições e características do bairro, que atualmente norteiam o comportamento dos moradores de Icaraí – área considerada nobre, o privilégio de morar à beira da Praia e a localização do comércio nas ruas internas – surgiram naquela época e consolidadas ao longo dos anos.
11. Topografia
Já dissemos aqui que Icaraí, em tempos idos, era uma imensa planície arenosa, em parte alagadiça, rodeada por morros, e que se estendia da praia até a atual rua de Santa Rosa, da aba do Morro do Calimbá (proximidades da Rua Dr. Paulo César) até o Morro do Cavalão. A área era cortada pelo Rio Icaraí.
Vindo da Fazenda da Boa Vista com o nome de Calimbá, o rio descia ao longo da rua do Cubango (atual rua Noronha Torrezão) até cruzar o caminho do Calimbá ou Carymbá (rua Dr. Paulo César), nas proximidades do atual largo do Marrão, seguindo a partir daí com o nome de Icaraí (ou Caraí). Atravessava um grande lodaçal – o Campo de São Bento – onde a ele se juntava um pequeno curso d’água, originário de Santa Rosa, e desaguava na foz da Ponta do Cavalão junto ao morro. Daí a conhecida designação de Canto do Rio, localizado no final da Praia de Icaraí.
Havia em Icaraí três elevações: o Morro de Santa Teresa, ainda existente, popularmente denominado Morro dos Alemães pelo grande número de alemães que ali residiam; o Morro da Pedreira ou do Cruzeiro, onde se situava a capela de São João Batista de Icaraí e que foi derrubada para dar lugar a um novo e imponente templo; e, por último, uma pequena colina, próxima ao Morro da Pedreira, demolida antes mesmo da capela de São João Batista de Icaraí, onde existiu a ermida de Nossa Senhora das Necessidades, provavelmente o local da atual igreja de Porciúncula de Santana.
Hoje o Rio Icaraí se encontra canalizado em toda a sua extensão. Podemos vislumbrá-lo aqui e ali, entre os edifícios e as novas construções do bairro, e ao longo da Avenida Ary Parreiras até a praia, onde foi coberto por uma laje de concreto para a construção da Igreja de São Judas Tadeu.
A área do Campo de São Bento foi aterrada e urbanizada no início deste século, durante a gestão do Prefeito Pereira Ferraz, segundo projeto do engenheiro paisagista belga Arsène Puttemans, que apresentou uma maquete – muito apreciada, por sinal – na Exposição Nacional de 1908.
12. Pedra da Itapuca
Inserida no bairro de Icaraí e símbolo de Niterói, a Pedra ou Arco de Itapuca é hoje apenas uma lembrança do que foi em épocas passadas. Ita-puca quer dizer pedra furada ou, em outra linguagem, arco de pedra. De fato, havia um arco que se apoiava, de um lado no morro próximo, de outro junto ao mar, e que só podia ser atravessado a “pé enxuto” com maré baixa.

A Itapuca (primeiro plano) e a Pedra do Índio. Ao fundo, a Praia de Icaraí: escassas construções e luxuriante vegetação. Foto da primeira década do século XX
Aos poucos a parte suspensa do arco ruiu, sobrando apenas as pontas dos dois lados. Com o passar do tempo a parte junto ao mar ficou reduzida a um pequeno amontoado rochoso que foi demolido durante a gestão do Prefeito Otávio Carneiro, com o objetivo de alargar o caminho para Icaraí e continuar a amurada do cais.
Do lado do morro, após o desmoronamento, permaneceu um longo nariz de terra, cuja queda amedrontava a quem passasse por ali.
Finalmente, depois de um prolongado período de chuvas, o nariz caiu, felizmente sem causar acidentes pessoais.
Ante o desaparecimento da verdadeira Pedra da Itapuca, seu nome foi transferido para uma pedra próxima, o que não invalida, em absoluto, a lenda que é contada há gerações.
Diz a lenda que “a bela índia Jurema, de olhos grandes e pele tostada pelo sol, prometida ao mais forte e bravo de sua tribo, estava na praia, quando se deparou com Cauby, de nação estranha.
Desde então, os dois passaram a ali se encontrar, Jurema cantando e Cauby ouvindo, enlevado, até que foram descobertos.
Atacados os dois amantes, Cauby foi obrigado a fugir e Jurema, ferida, nunca mais cantou.
Passou-se o tempo e Jurema, na véspera de seu casamento, mais uma vez dirigiu-se à praia. Deu-se então o inesperado: Cauby, emergindo das águas, veio ao seu encontro. Os dois, abraçados, deixaram-se ficar na areia, protegidos pela Lua, até que os guerreiros da tribo novamente os cercaram enfurecidos. A luta seria desigual e os amantes pagaram inevitavelmente com a vida. Foi quando Tupã, a pedido de Jacy, a Lua, abençoando o amor de Cauby e Jurema, transporta-os no milagre ao interior da pedra onde eternamente se uniram.”
13. Igreja de São João de Icaraí
Pouco se sabe sobre a primitiva Igreja de São João Batista de Icaraí, a época de construção ou sua exata localização. A data de sua demolição também é incerta.
Sabe-se, contudo, que foi importante ponto de referência em determinado período.
De acordo com a Carta Topográfica datada de 1833, a igreja se erguia no chamado Largo da igreja, local onde o caminho do Calimbá, vindo do mangue de São Lourenço (atual Rua Marquês do Paraná), bifurcava-se rumando um caminho pelas abas do morro da Boa Vista (atual Dr. Paulo César) e o outro em direção do Campo de São Bento (hoje Avenida Roberto Silveira).
Com a transferência do centro da Vila de São Domingos para o Campo de Dona Helena (atual centro de Niterói), área que atendia melhor ao contínuo crescimento da província, a igreja, que fora a matriz de São João de Icaraí, ficou muito distante.
Em 1820, os membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento e da Irmandade de São João Batista pediram autorização a D. João VI para construção “de uma nova matriz dedicada a São João Batista“. (Na planta de 1833 já consta a nova matriz na Praça Municipal, em local próximo da atual Catedral.)
Assim, a velha e “indecente” matriz, desviada do centro da vila, foi demolida, depois de encurralada pelas novas construções.
14. Toponímia
O atual traçado urbanístico de Icaraí deveu-se basicamente ao Plano de Arruamento de 1840-41, de autoria do engenheiro francês Pedro Taulois, projetado e implantado durante a gestão do Visconde de Uruguai, no cargo de Presidente da Província.
Inicialmente as ruas foram identificadas por números, sendo estes substituídos por nomes, que, por sua vez, foram trocados ao sabor dos acontecimentos de cada época.
Dando prosseguimento à lista dos logradouros que tiveram a sua denominação alterada, citamos:
Praça Visconde de Abaeté –> Parque Prefeito Ferraz (Campo de São Bento)
Rua Adicional –> Avenida Sete de Setembro ou Comendador Queirós
Travessa dos Bancários –> Rua Doutor Halfeld
Rua Cruzeiro –> Rua Oswaldo Cruz –> Rua Cinco de Julho
Rua das Estrelas –> Rua Mariz e Barros
Rua do Fundador –> Rua Lopes Trovão
Rua da Independência –> Rua Álvares de Azevedo
Rua dos Legisladores –> Ruas Belisário Augusto e Domingues de Sá
Rua do Reconhecimento –> Avenida Sete de Setembro
Rua da Regeneração –> Rua Otávio Carneiro
Rua da Sagração –> Rua Presidente Backer
Avenida do Saneamento –> Avenida Comandante Ary Parreiras
15. Campo de São Bento
O Parque Prefeito Ferraz, nome oficial do Campo de São Bento, comprovadamente já pertenceu aos beneditinos.
A área integrava um imenso território que em meados do século XVII era de propriedade de Antônio Maciel Tourinho, que o vendeu ao seu filho Francisco Borges Tourinho. Este por sua vez cedeu uma parte a Manoel Rodrigues Raimundo, com escritura lavrada na residência do vendedor, no Rio de Janeiro.
Atualmente é difícil precisar os limites desse enorme espaço. A descrição que consta dos documentos da época traz pormenores que somente os moradores locais conheciam bem. No final do século XVII, em 1697, Manoel Rodrigues Raimundo vendeu as terras aos monges do mosteiro de São Bento, que saldariam a sua dívida de forma bastante peculiar: em gado advindo de Campos.
Já no século XIX, de 25 a 30 de junho de 1824, o Campo de São Bento foi palco de manobras militares comandadas por D. Pedro I.
Com o Plano de Arruamento de 1840-41, foram definidos os limites do Parque, como o conhecemos atualmente.
Durante a epidemia de escarlatina em 1843, a malária também causava apreensão entre os niteroienses, doença transmitida por mosquitos que se alojavam nas áreas pantanosas da cidade, como o Campo de São Bento.
Aterrado em 1882-83 durante a gestão do Presidente Gavião Peixoto, o parque finalmente foi urbanizado, segundo projeto do engenheiro paisagista belga Arsène Puttemans, já no início do século XX, durante o governo do Prefeito João Pereira Ferraz.
Datam dessa mesma época um pavilhão substituído posteriormente por outros prédios que abrigam hoje o Grupo Escolar Joaquim Távora, o Centro Cultural Paschoal Carlos Magno e o Jardim de Infância Júlia Cortines.
Atualmente o Parque Pereira Ferraz é freqüentado assiduamente pela população. Abriga um pequeno parque de diversões e uma feira de artesanato. Oferece inúmeras atrações, como retretas, encontros do Clube do Curió, exposições, lançamentos de livros, shows, cursos e apresentação de filmes e vídeos.
16. Regatas
O Clube de Regatas Icaraí, ao lado do Grupo de Regatas Gragoatá (ambos de Niterói), do Botafogo e do Flamengo (no Rio de Janeiro), conta entre os clubes esportivos mais antigos do Brasil. Foram todos eles fundados no final do século passado, refletindo bem as preferências desportivas da época: o remo e a natação.
O Regatas, como o clube é conhecido, nasceu de um pequeno grupo de entusiastas pelo remo e de outros atletas que escreveram a rica história de glórias e conquistas desse clube.
A popularização do futebol e a transferência das regatas da Baía de Guanabara para a Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, contribuíram para o declínio do remo em Niterói. Os clubes sofreram muito com essas transformações. Alguns até não conseguiram sobreviver.
O Regatas permaneceu graças ao trabalho incansável de seus dirigentes e de seus sócios. A primeira sede do Regatas foi um modesto barracão de madeira e zinco. Em 1907 construiu-se a segunda sede, já em alvenaria.
Entretanto, o terreno onde se localizava o clube passou por diversos proprietários. Finalmente na década de 1930 a sua posse foi legalizada, por intermédio de Ary Parreiras e se sucessor no governo do Estado, Newton Cavalcanti.
A sede atual foi construída na década de 1940, a partir de um arrojado projeto do arquiteto Orlando Campofiorito. Previa um edifício de três andares com salões de festas, salas para a diretoria e departamentos, garagem de barcos, quadra e piscina.
Dentre as personalidades que marcaram o Regatas, podemos citar: o Almirante Ary Parreiras, considerado o maior benfeitor do clube; Otávio Mafra, fundador e primeiro presidente do clube; seu irmão Celso Mafra, um dos idealizadores do novo clube. Arnaldo Nunes de Souza, que dedicou sua vida ao Regatas; Quirino Campofiorito, diretor e instrutor de remo e natação; e, ainda, Honório Peçanha, Álvaro Tatto, Gastão Mariz de Figueiredo, Mário Rocha, entre tantos mais.
17. Fotografia
Muitos foram os fotógrafos que retrataram, no passado, a cidade de Niterói. Através de seus importantes trabalhos de documentação iconográfica, podemos avaliar as feições de Niterói naquele tempo.
A primeira fotografia de Niterói de que se tem notícia é de autoria do francês Victor Frond. Mais tarde, Georg Leuzinger, nascido na Suíça e morto no Rio de Janeiro, realizou a primeira documentação fotográfica mais abrangente da cidade.

Em primeiro plano, o Clube de Regatas de Icaraí. Atrás, o Hotel Balneário Casino Icaraí. Foto: Fonsequinha
Entre os profissionais que mais se destacaram podemos citar: Marc Ferrez, Juan Gutierrez, Florindo Siqueira, Conde de Agrolongo, Augusto Malta (o que mais retratou o Rio) e, mais recentemente, Divaldo Aguiar Lopes e Manuel Fonseca, o Fonsequinha.
Manuel Fonseca foi tão importante para Niterói como o foi Augusto Malta para o Rio de Janeiro. Estabelecido na Rua Presidente Backer 413, em Icaraí, Fonsequinha atuava como repórter fotográfico de jornais e revistas de grande circulação e oferecia seus serviços para documentar casamentos, batizados e formaturas de colégios de renome, como o Salesiano, o Brazil e o Bittencourt Silva. Tornou-se, também, o fotógrafo predileto de agremiações as mais diversas.

Em primeiro plano, a Pedra da Itapuca, depois a Pedra do Índio e, ao fundo, os primeiros prédios de Icaraí
Devido, talvez, ao fato de estar instalado em Icaraí, pôde ele realizar um sem número de fotografias sobre esse bairro. Retratou, nas décadas de 40 e 50, os blocos de carnaval e os banhos de mar à fantasia na Praia de Icaraí, os blocos de sujos e as respectivas sereias e o famoso Trampolim, antes e durante a sua demolição, vindo a ser este o seu último trabalho, pois sofreu sérios problemas de saúde em decorrência da forte explosão.
Diante da aposentadoria forçada, voltou-se para os netos e a pintura, vindo a falecer em abril de 1979, aos oitenta anos de idade.
18. Álbum
O livro A Capital Fluminense (Álbum de Nictheroy) datado de 1925, de Júlio Ponpeu de Castro Albuquerque, é uma importante contribuição para a história de Niterói. Rica em fotografias e dados estatísticos, a publicação traça um perfil da vida urbana naquela época.
A população de Niterói, por exemplo, em 1920, era de 86.238 habitantes, em comparação com o ano de 1900, quando a cidade contava, ainda, com 53.433 habitantes.
Entre os moradores havia muitos estrangeiros: portugueses (9.488), espanhóis (960), italianos (750), ingleses (459) e alemães (228), que ocupavam as mais variadas profissões. A presença maciça de ingleses e alemães justificou a criação, respectivamente, do Rio Cricket (Clube dos Ingleses), localizado na Rua Fagundes Varela, e a fundação da Comunidade Luterana (com cultos em alemão), situada no Morro de Santa Teresa, em Icaraí.
Dentre as instituições de saúde, podemos destacar a Casa de Saúde Icaraí que se localizava na Praia de Icaraí 49 e era dirigida pelos clínicos Drs. Antônio Pedro Pimentel (fundador da Faculdade Fluminense de Medicina), Ernani de Faria Alves e Leonídio Ribeiro Filho. A Casa era a “única existente no Estado do Rio, installação completa, com aparelhos dos mais modernos, modelar estabelecimento; com secção de Maternidade, sob a direção do Dr. Oliveira Motta.”
As agremiações também já marcaram presença, em particular, o Clube de Regatas Icaraí e o Clube Central, este ainda bastante jovem, pois tinha sido fundado uns poucos anos antes: em 1920.
O Álbum retrata em especial o bairro de Icaraí, mostrando através de fotografias o Campo de São Bento, o desfile de um bloco carnavalesco na Rua Cinco de Julho e as belas mansões e vivendas localizadas na Praia de Icaraí. Sem dúvida, o Álbum de 1925, como é conhecido, é uma obra rara e importante fonte de pesquisa não só para historiadores, como também para aqueles curiosos em conhecer um pouco mais da história da cidade. Um exemplar dessa valiosa obra encontra-se no Centro de Memória Fluminense, na Biblioteca Central do Gragoatá/UFF, e faz parte do acervo Carlos Mônaco.
19. Icaraí por Parreiras
Antônio Diogo da Silva Parreiras – ou simplesmente Antônio Parreiras – conta entre os maiores pintores paisagistas brasileiros. Nascido em São Domingos, Niterói, em 21 de janeiro de 1860, teve um começo de carreira muito difícil, por ter perdido o pai muito cedo e não poder exercer a pintura livremente.
Somente em fins da década de 1880, após uma viagem de estudos à Itália, o seu trabalho obteve o merecido reconhecimento.
Sucessivas exposições e numerosas encomendas comprovam o amplo sucesso finalmente obtido por Parreiras, quando foi nomeado professor da Escola Nacional de Belas Artes e fundou a Escola ao Ar Livre, instalada em Icaraí.
Durante o decorrer de sua vida empreendeu várias viagens pelo Brasil e pela Europa, para pintar quadros que lhe eram encomendados e atualizar os seus conhecimentos sobre as mais recentes técnicas da pintura de paisagens.
Recebeu uma série de medalhas e numerosas homenagens, dentre as quais a inauguração de um busto, localizado na Praça Getúlio Vargas, em Icaraí.
Parreiras faleceu em conseqüência de uma séria intoxicação com produtos químicos utilizados nas tintas, no dia 17 de outubro de 1937, na sua residência, situada na Rua Tiradentes 47, Ingá, onde atualmente se encontra o Museu que leva o seu nome.
Parreiras retratou, como ninguém, a sua cidade natal. Retratou Icaraí (ainda um bairro emergente) em várias obras, datadas, em sua maioria, do início de sua carreira: Restinga de Icaraí, Foz do Rio Icaraí, Panorama da Praia de Icaraí, Pedra da Itapuca, Ancoradouro, Trecho da Rua da Sagração (atual Rua Presidente Backer) e Rua Presidente Backer em Icaraí.
Todas as obras citadas acima encontram-se em coleções particulares ou são apenas citadas na Bibliografia, com exceção da peça Rua Presidente Backer em Icaraí, que pode ser apreciada pelo público no Acervo Galeria de Arte, no Rio de Janeiro.
20. Igreja de São Judas Tadeu
A história de construção da Igreja de São Judas Tadeu teve início na década de 1950, quando se verificava um crescimento vertiginoso da população de Icaraí.
Em 1959, D. Carlos Gouvêa Coelho, bispo de Niterói, incumbiu o seu principal auxiliar, padre Abílio Real Martins, da tarefa de criar uma paróquia para atender esses moradores.
O terreno destinado à construção do templo pertencia à Caixa de Mobilização Bancária e se localizava na orla da praia de Icaraí, no Canto do Rio. Com o dinheiro arrecadado nas missas, construiu-se, inicialmente, uma pequena capela, sede provisória da Paróquia de São Judas Tadeu. O projeto escolhido para a construção da sede definitiva foi de autoria do renomado arquiteto Manoel da Silva Machado – companheiro de Rotary, cujo trabalho correspondeu plenamente aos anseios da Paróquia desejosa de ver construída uma edificação de arquitetura moderna e arrojada, a exemplo da Igreja de São Francisco, na Pampulha, em Belo Horizonte.
O local foi praticamente “criado” com a construção de uma laje cobrindo a foz do canal, porque a legislação vigente exigia que a área do canal deveria ser preservada, não podendo ser obstruída.
Finalmente, em 19 de setembro de 1969, foi possível dar-se início à construção.
Através da forma geométrica triangular o arquiteto Manoel Machado conseguiu traduzir os preceitos básicos do Cristianismo. Apoiada sobre três pontos, a cúpula expressa a Unidade e a Estrela-de-David. A igreja tem capacidade para 500 pessoas sentadas e dispõe de um auditório para 200 pessoas, diversos salões, salas de aula, secretaria, entre outras dependências. Possui um painel com o itinerário seguido por São Judas Tadeu e figuras simbólicas dos Evangelistas, obras exclusivas do artista espanhol Júlio Espinosa.
A imagem do padroeiro, de autoria do mesmo artista, foi demolida há alguns anos, para tristeza e indignação dos apreciadores das grandes obras de arte. Contudo, a igreja constitui-se num marco em Niterói, por ser o primeiro templo de moderna concepção arquitetônica da cidade..
21. Clube Central
A sede do Clube Central se localiza em posição privilegiada, bem ao centro de toda a extensão da Praia de Icaraí.
Agremiação social tradicional em Niterói, o Central nasceu no Ingá e foi fundado em 18 de julho de 1920, por personalidades proeminentes da sociedade de então. Iniciou suas atividades num casarão que pertencia à família de Armando Lassance, localizada na Rua Presidente Pedreira 65. Mudou de sede várias vezes: ocupou por algum tempo o prédio onde hoje funciona a Escola Estadual Aurelino leal, em frente ao Palácio do Ingá. Em abril de 1921, a sede foi transferida para o nº 138 da mesma rua e, ainda na Presidente Pedreira, o clube construiu a sua primeira sede própria.
Finalmente em fevereiro de 1932, o clube mudou-se para o local que ocupa hoje, o nº 335 da Praia de Icaraí.
Nessa época o clube foi palco de reuniões dos políticos do Estado do Rio, em que foram tomadas importantes decisões.
Pela presidência do Clube Central já passaram 25 presidentes, sendo o primeiro Armando Carreira Lassance, que permaneceu no cargo até 1932.
Em 1973, durante a gestão de Gustavo Gurgulino de Souza, começou-se a estudar a viabilidade de construção de uma sede que atendesse melhor às crescentes atividades do clube.
A obra da nova – e atual – sede, projeto do arquiteto Manoel Machado, foi executada durante a gestão do presidente Rubens Maragno e inaugurada no dia 18 de julho de 1976, ano do 56º aniversário do clube.
O prédio compõe-se de três andares, que abrigam um imponente hall de entrada, salão nobre, uisqueria, auditório, salas da diretoria, entre outras dependências, sem falar no parque aquático e nas saunas, muito freqüentadas pelos sócios, principalmente nos meses de verão.
O Central possui, também, um ginásio de esportes, localizado na Rua Cel. Moreira César 251, que foi construído mais tarde, ainda na gestão de Rubens Maragno.
22. Dados estatísticos
O estudo Niterói: bairros, levantamento de dados realizado pela Consultoria Especial de Ciência e Tecnologia, órgão da Prefeitura Municipal de Niterói, e publicado em março de 1996, revela dados surpreendentes sobre os 48 bairros que compõem o município de Niterói.
Falando especificamente de Icaraí, o bairro apresentou nas décadas de 1940 e 50 um acelerado processo de adensamento demográfico facilitado pelo predomínio de construções verticais. No entanto, é bem servido de infra-estrutura básica.
É o segundo núcleo mais populoso do município (39.940 habitantes) e possui o número mais elevado de domicílios (20.229). Sua taxa média de crescimento é de 1,10% ao ano.
A taxa de alfabetização da população acima de 5 anos é bastante elevada (97,66%), ocupando a segunda posição do município. A primeira fica com o bairro da Boa Viagem.
Icaraí tem 67,50% de homens como chefes de família e 32,50% de mulheres. O rendimento médio mensal dos chefes de domicílio que recebem até 5 salários mínimos é de 23,48%; de 5 a 15 salários, 43,65% dos chefes e acima de 15 salários 30,66%.
Um outro dado relevante é que 70,11% dos imóveis são próprios e 23, 14% alugados.
A distribuição por faixa etária mostra um quadro peculiar. É relativamente menor a população infantil de 0 a 9 anos (10,92%) do que a idosa, de 65 anos ou mais (12,06%). A faixa etária que apresenta maior concentração é a adulta entre 20 e 44 anos (38,37%).
Quanto à distribuição por sexo, 43,72% dos moradores são homens e 56,28% mulheres.
23. Novas fronteiras e bairros vizinhos
O abairramento da cidade de Niterói é regularizado por lei aprovada em 1986 e vigora até hoje. No entanto, com a implantação do Plano Diretor de 1992, houve algumas mudanças que também foram aprovadas em forma de lei em 1995.
O bairro de Icaraí sofreu algumas dessas recentes modificações: o trecho da Av. Roberto Silveira até a Rua Geraldo Martins, que pertencia a Santa Rosa, foi incorporado a Icaraí.
Atualmente, Icaraí faz fronteira com sete bairros: Ingá, Centro, Fátima, Pé Pequeno, Santa Rosa, Vital Brazil e São Francisco. Sua linha divisória, tomando a ponta junto à Pedra da Itapuca como ponto inicial, percorre a linha de cumeada do Morro do Caniço até encontrar a Rua Fagundes Varela, passando pelo ponto mais alto do Morro do Arroz até a Rua Miguel de Frias com a Avenida Marquês do Paraná. Daí em linha imaginária até as proximidades da Rua Dionísio Erthal, encontrando-se com a Rua Paulo César, passando pelas Ruas Santos Dumont, Presidente Backer, João Pessoa, Lopes Trovão, Geraldo Martins, Dom Bosco até a Rua Miguelote Viana, já próximo do bairro Vital Brazil. Segue pela linha de cumeada do Morro do Cavalão até a orla marítima do Canto do Rio (prolongamento da Rua Joaquim Távora). Acompanha a orla marítima até o ponto inicial, a Pedra da Itapuca.
24. Estádio Caio Martins
Dentre os melhoramentos realizados em Niterói, na década de 1940, durante a gestão do Interventor Federal Ernani do Amaral Peixoto à frente do governo estadual (1937-1945), consta a instalação de um estádio para competições desportivas. A construção desse estádio fazia parte de um grande plano de remodelação da cidade, para cuja consecução constituíra-se a Companhia de Melhoramentos de Niterói.
Funcionava naquele local, com permissão da Prefeitura, um canódromo que, em virtude de lei federal regulando os jogos de apostas, foi obrigado a fechar.
Adquirida pelo governo estadual, construiu-se nessa área um estádio de futebol de instalações modestas a que se deu o nome de Caio Martins.
Junto ao estádio foi inaugurado, no dia 7 de setembro de 1941, um monumento em homenagem ao escoteiro Caio Viana Martins, com o objetivo de recordar o exemplo de desprendimento e extraordinário autocontrole demonstrados por ele, por ocasião de um desastre de trem na Serra da Mantiqueira em 1938, quando pouco antes de morrer dispensou com a frase “O escoteiro caminha com suas próprias pernas“, a ajuda a ele oferecida para que outros a recebessem.
Durante o segundo governo de Amaral Peixoto, não mais como interventor e sim como governador constitucional (1951-955), foram concluídas as obras do estádio com a construção da tribuna de honra, do ginásio olímpico para basquete e da piscina de 25x50m com arquibancadas cobertas para cerca de 2.000 espectadores.
25. Gavião Peixoto
Bernardo Avelino Gavião Peixoto foi o 33º presidente da Província do Rio de Janeiro. Nasceu em São Paulo, filho de Bernardo José Pinto Gavião Peixoto e Ana Policena de Andrade e Vasconcelos.
Bacharel pela Academia de São Paulo, em 1849, dedicou-se à magistratura em sua província que viria a representar na Câmara dos Deputados em várias legislaturas. Presidiu o Rio de Janeiro de 1882 a 1883.
Gavião Peixoto foi um dos primeiros a idealizar uma ligação entre Rio e Niterói por meio de uma ponte, sonho que viria a ser realizado somente na década de 1970.
Durante a sua gestão efetivou o aterro do Campo de São Bento, imenso lodaçal infestado de mosquitos. Reformou, também, o Jardim do Ingá, atual Praça César Tinoco.
A rua que hoje leva o nome de Gavião Peixoto – a antiga Rua do Sousa – foi implantada em meados do século XIX durante a execução do Plano de Arruamento (1840-41).
Desde o início da existência desse logradouro concentrou-se ali boa parte do comércio do bairro.
No século XVII situava-se naquela área, próximo às atuais ruas Mariz e Barros, Moreira César e Otávio Carneiro a antiga ermida de São João Batista de Icaraí (icaraí = água santa).
Atualmente a Rua Gavião Peixoto abriga, entre outras importantes instituições, a sede do arcebispado – Mitra Arquidiocesana, a Igreja Anglicana, e se caracteriza pelo grande movimento de pessoas, que se beneficiam do comércio bastante expressivo, por oferecer os mais variados produtos e serviços à população.
26. Presidente Backer
Alfredo Augusto Guimarães Backer foi o 6º presidente do Estado, da fase constitucional (Constituição de 1891) do Período Republicano. Nasceu em Macaé, onde se diplomou em Comércio. Mais tarde, formou-se em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro, profissão que exerceu durante muitos anos em sua cidade natal. Fundou em Macaé o Partido Republicano. No novo regime foi constituinte fluminense em 1892, e deputado estadual repetidas vezes, até 1894. Sucedeu Nilo Peçanha à frente do governo estadual, do qual foi o secretário geral do Estado. Em 1906 foi eleito para um período de quatro anos (até 1910), de acordo com a recente reforma constitucional.
Durante o seu mandato, Niterói recebeu todo o apoio para realização de obras de grande vulto. Por intermédio do governo municipal de João Pereira Ferraz promoveu a abertura da Alameda São Boaventura, a construção do cais de Icaraí e da ponte para a atual Rua Joaquim Távora; o prolongamento da Rua Tiradentes (trecho da Rua Fagundes Varela), utilizando o material retirado no aterro da antiga Praça Visconde do Abaeté (Campo de São Bento); bem como o alargamento da Rua Marquês do Paraná, entre inúmeras outras obras.
A Rua Presidente Backer (antiga Rua da Sagração) foi implantada em 1840-41. Atualmente, é considerada uma das principais artérias de Icaraí. Transversal à praia, essa via termina na Rua Santa Rosa, fazendo a ligação entre os bairros de Icaraí e Santa Rosa. Localiza-se aí o Estádio Caio Martins, a praça de esportes mais significativa de Niterói, e vários estabelecimentos comerciais próximos do cruzamento com a Rua Gavião Peixoto.
27. Lopes Trovão e Mariz e Barros
José da Silva Lopes Trovão foi jornalista e político brasileiro, ocupação que o marcou no cenário brasileiro. Nasceu em Angra dos Reis, em 1847. Formou-se em Medicina pela Faculdade do Rio de Janeiro, em 1875, e participou, ainda como estudante, de comícios republicanos. Destacou-se por sua participação na propaganda da República. Foi deputado à Constituinte e senador na vaga de Saldanha Marinho. mais tarde afastou-se da vida pública, ocupando o cargo de oficial do Registro de Hipotecas. Faleceu no Rio de Janeiro em 1925.
Herói da Guerra do Paraguai, Antônio Carlos de Mariz e Barros, nasceu no Rio de Janeiro, em 1835, filho do Alte. Joaquim José Inácio, Visconde de Inhaúma. Seguiu para a campanha do Paraguai como guarda-marinha, distinguindo-se na tomada de Paissandu, em 1865. Participou do duro combate nas “barrancas do Rio Paraná, entre Itapiru e Passo da Pátria”, já como capitão-tenente, no comando do encouraçado Tamandaré. Entre as muitas baixas brasileiras, Mariz e Barros foi ferido mortalmente, vindo a falecer em 1866, no hospital do sangue ao ser-lhe amputada uma perna.
As ruas que levam o nome das duas figuras proeminentes da História do Brasil, são importantes vias de escoamento de todo o trânsito de Icaraí. Situam-se perpendicularmente à praia, fazendo a ligação desse bairro com o de Santa Rosa, terminando ambas na Rua de Santa Rosa.
A Rua Lopes Trovão (antiga Rua do Fundador) possui vários centros comerciais nas proximidades da Rua Gavião Peixoto, Em seu trajeto encontra-se o Campo de São Bento e, mais à frente, o Estádio Caio Martins, lado oposto à Rua Presidente Backer.
A Rua Mariz e Barros (antiga Rua das Estrelas) caracteriza-se pelos inúmeros prédios residenciais de deslumbrantes fachadas e pelos vários estabelecimentos de ensino e consultórios. O Instituto Vital Brazil iniciou ali as suas atividades numa casa, fazendo esquina com a Rua Gavião Peixoto.
28. Os ingleses em Icaraí
Nomes de logradouros, como Mr. Cunditt (Centro), Guilherme Briggs (São Domingos) e Greenhalgh (Icaraí) ou de instituições, como All Saints Church, Nictheroy Rest Home ou, ainda, de moradores, como George Cox, Abbott, Causer, Moore remontam à importância que a colônia britânica já teve em Niterói. De fato, os ingleses tinham interesses muito grandes em Niterói e vinham se destacando na cidade, desde tempos bem remotos.
Devido ao elevado número de membros, a colônia possuía sua própria escola, seu recolhimento para idosos, sua igreja e suas agremiações, além de casas comerciais e outras, como a Western Telegraphic Co. (atual prédio da Escola de Arquitetura da UFF) e a Leopoldina Railway, que ficava na Estrada Fróes.
The Rio Cricket and Athletic Association, na Rua Fagundes Varela, foi fundada por George E. Cox, em dezembro de 1897, seguindo os moldes da associação fundada por ele no Rio, o Rio Cricket Club. A atual sede do clube, inaugurada em 1931, composta pelo prédio e pela bela faixa de terreno gramado à sua frente, pertencem a 12 acionistas: pessoas físicas de nacionalidade inglesa e pessoas jurídicas, a Wilson Sons, Shell do Brasil S.A., Cia. Souza Cruz, Bank of London e British Commonwealth.
Outros clubes fundados por ingleses foram o Fluminense Football Club, em 1902, o Yacht Club Brasileiro e o Rio Yacht Club, em 1914.
A igreja anglicana-episcopal All Saints Church, situada na Rua Gavião Peixoto, bem em frente ao Campo de São Bento, foi construída no estilo neogótico inglês. Sua pedra fundamental foi lançada em 1921 e sua consagração ocorreu no ano seguinte.
Atualmente, a colônia britânica está bastante reduzida, pela falta de renovação, pelo retorno de membros à sua terra natal ou, ainda, pelo fato de seus descendentes serem absorvidos pela comunidade não britânica. Os poucos ingleses que ainda residem em Niterói estão dispersos, não mais representando a importância que possuíram anteriormente.
29. Dr. Paulo César
Paulo César de Andrade, filho do Major Paulo César de Andrade e D. Rita Cândida da Mota César de Andrade, nasceu em Itaboraí, Província do Rio de Janeiro, em 20 de agosto de 1848. Recebeu carta de bacharel em Letras pelo Imperial Colégio D. Pedro II e se formou na Faculdade de medicina do Rio de Janeiro em 1872, distinguindo-se nas duas pela inteligência e pelo estudo.
Iniciou a sua clínica em Niterói e a manteve até falecer. Ingressou na política pelo Partido Liberal como vereador, em seguida, como deputado à Assembléia Provincial e constituinte da Assembléia em 1891. Muito ativo, ocupou cargos de grande responsabilidade também na vida empresarial (Companhia Cantareira e Viação Fluminense, entre outras). Comparecia a reuniões esportivas e sociais (Club de Regatas Nictheroyense, Hipódromo da Guanabara, este em São Gonçalo, e Jockey Club) e teve destacada atuação durante a epidemia de varíola em Niterói (1886). Gozava de muito prestígio entre seus colegas médicos (Miguel Couto, Tavares de Macedo entre outros) e grande popularidade em todas as camadas sociais por ter sido prestimoso médico e por exercer a sua profissão com dignidade.
Não foi à toa que seu súbito falecimento no dia 12 de março de 1899 – portanto aos 51 anos incompletos – causaria geral consternação. O corpo foi velado em sua residência, na Rua do Calimbá 19, rua que leva, atualmente, o seu nome.
A Rua do Calimbá consistia num trecho do Caminho do Calimbá que partia do mangue de São Lourenço, passava pelo Lomelino, encontro das atuais ruas Marquês do Paraná, Miguel de Frias, Dr. Paulo César e Avenida Gov. Roberto Silveira, e seguia em direção à antiga Fazenda Boa Vista. Após a morte inesperada do Dr. Paulo César, a Câmara niteroiense resolveu rebatizar o logradouro para reverenciar a sua memória, dando-lhe o nome do destacado médico.
30. Água e esgoto
O sistema de água e esgoto sempre foi um problema em Niterói. No final do século passado, a população ainda se abastecia nos chafarizes da cidade. A primeira tentativa de se implementar um grande projeto de abastecimento ocorreu em 1831, com a canalização da água oriunda do Morro de São Lourenço. o projeto previa um açude, cuja construção se estendeu por décadas. Enquanto isso, os chafarizes existentes foram sendo consertados aguardando a conclusão das obras.
Outros locais de captação de água foram cogitados, sendo o manancial mais rico o do Rio da Vicência, que hoje corre canalizado ao longo da Alameda São Boaventura.
Finalmente, em princípios de 1892, depois da instalação de tubulações e de reservatórios, a cidade recebeu água de Nova Friburgo e, entre 1927 e 29, a capacidade foi aumentada com a água oriunda de Magé (Serra dos Órgãos).
Com o crescimento dos municípios de Niterói e São Gonçalo, o sistema ficou obsoleto, chegando ao colapso. Criou-se, então, a Companhia de Água e Esgoto de Niterói, seguida depois pela CEDAE do Estado do Rio e agora a Concessionária Águas de Niterói.
Atualmente, os bairros mais populosos são abastecidos pelo sistema Laranjal-Imunana, localizado em São Gonçalo.
A precariedade do sistema de esgoto era ainda maior. Em 1880-81 a população se servia de fossas ou dos serviços da Empreza de Remoção de Matérias Fecais, que coletava os dejetos e os despejava nas águas da Baía de Guanabara. Francisco Portela, primeiro governador do Estado, médico por profissão, procurou sanar o problema com um projeto de rede de canalização para esgotos com todo o processo de desinfecção por meios químicos, a ser implantado nos bairros do Centro, São Domingos, Icaraí, Santa Rosa etc. A execução do projeto, ampliado e modernizado, só foi concluída em 1920, durante a gestão do Prefeito Otávio Carneiro.
Em 1940 foi construída a estação de tratamento de Icaraí, entrando em operação somente em 1976. A estação de tratamento permitiu a redução considerável do lançamento de dejetos in natura nas águas da baía.
31. De jornalistas e poetas
Octávio Kelly, jurista e jornalista, nasceu em Niterói, no ano de 1878. Estudou no Liceu de Instrução Popular de Niterói, fundado pouco antes de 1880, onde foram os seus contemporâneos o Alte. Sousa e Silva e Afonso Henriques de Lima Barreto (Policarpo Quaresma). Sua vida profissional foi bastante profícua. Residiu numa bela vivenda situada na Rua Visconde de Itaboraí 249. Fundou no final do século XIX o jornal O Diário e participou do semanário A Capital, fundado em 1899, que, no entanto, teve vida breve.
Manuel Antônio Álvares de Azevedo era sobrinho do famoso poeta Álvares de Azevedo. Foi, como o tio, poeta, além de jornalista e teatrólogo. Sua atuação no meio jornalístico foi bastante expressiva. Em 1902 foi fundado outro jornal com o mesmo nome A Capital e que foi dirigido por ele. Colaboravam nesse jornal, entre muitos outros, Tavares de Macedo e Mário Vianna. Álvares de Azevedo morreu em 1905, vítima da tuberculose.
Quanto aos poetas, Luís Nicolau Fagundes Varela foi uma das maiores expressões da poesia do período romântico brasileiro. Nascido em Rio Claro, RJ, em 1841, iniciou mas não concluiu os estudos de Direito. Trabalhou em jornalismo como meio de sobrevivência, mas entregou-se muito cedo à bebida e à vida boêmia. Faleceu em Niterói em 1875, onde foi enterrado. Fagundes Varela é um dos patronos da Academia Fluminense de Letras, assim como Belisário Augusto.
Belisário Augusto Soares de Sousa, também grande poeta, lecionava filosofia no Colégio Felisberto de Carvalho, um dos mais renomados da época. Era amigo e colega do Dr. Paulo César de Andrade e, por ocasião da morte deste, pronunciou comovente oração fúnebre.
32. As ruas Octávio Kelly, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela e Belisáro Augusto
A Rua Octávio Kelly originalmente se chamava Rua Barros. Recebeu seu primeiro nome de acordo com edital da Câmara Municipal publicado em 17 de julho de 1841, por ocasião da implantação do Plano de Arruamento. Posteriormente, foi rebatizada como Rua Prefeito Ferraz e, mais recentemente, recebeu a denominação atual.
A Rua Álvares de Azevedo (antiga Rua da Independência) conta, hoje, entre as mais importantes vias de passagem de Icaraí para outros bairros. No entanto, obteve a atual configuração ao ser demolido um outeiro, onde se localizava a Igreja N.S. das necessidades. Havia ali, até pouco tempo, fazendo esquina com a Praia de Icaraí, a Pensão Aimoré, no local do atual Cinema Icaraí. no lado oposto encontrava-se uma quadra de tênis com pequena manufatura de raquetes. Hoje situa-se ali um dos primeiros edifícios do bairro.
A Rua Fagundes Varela surgiu a partir do prolongamento da Rua Tiradentes realizado pelo Prefeito Pereira Ferraz. O material retirado do corte foi utilizado no aterro do mangue de São Lourenço.
Já a Rua Belisário Augusto, transversal à Praia de Icaraí, representa um trecho da antiga Rua dos Legisladores, que também incluía a atual Rua Domingues de Sá.
Analisando-se o traçado do bairro no mapa da cidade, verificamos que essas duas ruas constituem uma reta, apenas interrompida pelo Morro da Pedreira (ou Morro do Cruzeiro). A intenção, na época da implantação do Projeto de Arruamento certamente foi a de demolir o obstáculo, o que acabou não acontecendo.
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Relação de alguns logradouros de Icaraí com suas denominações antigas
Nome atual | Nomes antigos
A
Álvares de Azevedo, R. | Independência, R. da
B
Belisário Augusto, R. (e Domingues de Sá, R.) | Legisladores, R. dos
C
Castilhos França, R. | N.S. do Rosário, Tv. de; Coronel Teixeira Liomil, Tv.
Cinco de Julho, R. (e Oswaldo Cruz, R.) | Cruzeiro, R.
Cinco de Julho, R. | Prefeito Ribeiro de Almeida, R.
Comandante Ary Parreiras, Av. | Saneamento, Av. do
Comendador Queirós, R. (e Sete de Setembro, Av.) | Adicional, R.
Coronel Moreira César, R. | Vera Cruz, R.
D
Desembargador Ferreira Pinto, R. | Santo Antônio, Tv.
Dom Bosco, R. | Olaria, Tv. da; Dom Bosco, Tv.; Tv. do Reconhecimento
Doutor Carlos Halfeld, R. | Bancários, Tv. dos
Doutor Geraldo Martins, R. | Brasília, R.
Doutor Otávio Carneiro, R. (e Professor Miguel Couto, R.) | Regeneração, R.
Doutor Paulo César, R. (e Marquês do Paraná, R.) | Calimbá, Cam.; Calimbá, R.; Manuel de Frias, R. do
Doutor Tavares de Macedo, R. | Cabral, R.
E
Estado de Israel, Tv. | Icaraí, Tv.
G
Gavião Peixoto, R. | Sousa, R. do
General Pereira da Silva, R. | Aclamação, R. da
Getúlio Vargas, Pç. | Icaraí, Jd.; Jaú, Pç.
J
Joaquim Távora, R. | Juarez Távora, R.; Santa Bibiana, R.; Prefeito Sodré, R.
L
Lemos Cunha, R. (e Mem de Sá, R.) | Mem de Sá, R.
Leopoldo Fróes, Estr. | Fróes, Estr.
Lopes Trovão, R. | Fundador, R. do
M
Mariz e Barros, R. | Estrelas, R. das
Miguel de Frias, R. | Constituição, R. da
Ministro Octávio Kelly, R. | Barros, R.; Prefeito Ferraz, R.
O
Oswaldo Cruz, R. (e Cinco de Julho, R.) | Cruzeiro, R.
P
Prefeito Ferraz, Pq. | Visconde de Abaeté, R.; São Bento, Cp. de
Presidente Backer, R. | Sagração, R. da
Presidente João Pessoa, R. | Corrêas, R. dos; Norival de Freitas, R.
Professor Miguel Couto, R. (e Dr. Otávio Carneiro, R.) | Regeneração, R.; Otávio Carneiro, R.
Professora Elza Bittencourt, R. | Alberto Fortes, Tv.
S
Santos Dumont, R. (entre Presidente Backer, R. e General Pereira da Silva, R.) | Nóbrega, R.
Sete de Setembro, Av. | Reconhecimento, R. do
Sete de Setembro, Av. (e Comendador Queirós, R.) | Adicional, R.
T
Tenente Mesquita, R. | Lopes Trovão, Tv.
V
Vicente Federici, Tv. | Miguelote, Tv.
Vinte e Quatro de Outubro, Al. | Sampaio Corrêa, R.






























