Por que o reaparecimento de doenças erradicadas?

Por Marco Orsini*

Ultimamente, a mídia tem divulgado o aparecimento de doenças antes erradicadas como, por exemplo, o sarampo. Em meados de 2016, a Organização Mundial da Saúde emitiu laudo que o País estava há 12 meses sem registro de infecção por esse vírus. Em seis meses de 2018, já são contabilizados cerca de mil casos. Não podemos esquecer também dos casos de poliomielite, que assombra mais de 300 cidades no Brasil. E o risco real de difteria.

Qual seria a gênese do problema? A primeira palavra pensada é pobreza “social” seguida de abandono “governamental”. No caso do sarampo, o vírus retornou com migração de venezuelanos para estados e municípios brasileiros com baixa cobertura vacinal. A população venezuelana busca melhores condições de vida no Brasil e, devido à falência do sistema de saúde naquele país, atrelada à baixa adesão vacinal no nosso, inicia-se um caos.

Vê-se com certa preocupação o ressurgimento das citadas doenças e sua associação ao processo migratório dos venezuelanos. Já existe muita intolerância com esses imigrantes, e agora a situação poderá se agudizar com o reaparecimento de doenças infectocontagiosas como o sarampo, até então tidas como erradicadas. Deve-se lembrar, por exemplo, as fake news que em muito têm contribuído para que pais menos esclarecidos deixem de vacinar seus filhos, na crença de efeitos colaterais graves que as vacinas podem ocasionar. Essa questão vai muito além da migração venezuelana, como sinaliza a professora Patricia Dusek.

Ouço de colegas médicos que nossa população precisa entender a gravidade e formas de proteção para interrupção da cadeia de transmissão do vírus. Sempre recito como um mantra. “Como um povo que não possui educação em saúde, que não é enxergado por seus governantes, que não possui um mínimo de formação intelectual será capaz de ter consciência em saúde”.

A preocupação com o enterovírus da pólio (causador da poliomielite anterior aguda) se dá pelo fato de que, embora não existam casos recentes no Brasil, identificou-se um registro da doença na vizinha Venezuela e a circulação do vírus em 23 países nos últimos 36 meses. Haiti e Venezuela apresentaram também surtos de difteria, doença que pode cursar com comprometimento respiratório e morte. No Brasil já existem casos suspeitos de difteria.

A educação que reivindicamos para a maioria da população excluída da vida econômica, política e cultural no Brasil resume-se a noções de higiene, de prevenção primária e de leitura/escrita. Em resumo, essas doenças retornam principalmente pelas desigualdades educacionais que constituem grave problema na sociedade brasileira e estão relacionadas à estrutura socioeconômica do país, sendo a pobreza sua expressão mais explícita. O pobre não tem acesso à informação em saúde; muitos não conhecem o termo “imunização”.

Soluções para os problemas de saúde devem abarcar o ciclo “desigualdade – pobreza”, esse mesmo que “agudiza” a vulnerabilidade, tornando os menos favorecidos expostos a doenças. Precisamos enxergar a pobreza em sua multidimensionalidade, de pertinho, incorporando além da subsistência, seus inúmeros aspectos, dentre eles, o político.

Em resumo, a pobreza e a falta de educação em saúde, atreladas a um sistema falido de saúde pública em nosso País e nos vizinhos são as grandes deflagradoras desse processo. Entendemos por informar e educar, formas de tratar e prevenir.

 

* Marco Orsini é médico com PHD pela UFRJ, professor dos Programas de Mestrado em Desenvolvimento Local – UNISUAM e Ciências Aplicadas à Saúde – Universidade de Vassouras.

(Fonte: Revista O Flu, 29/7/2018, p. 30, Espaço Aberto)