Sobram vagas. Falta pessoal.

Simone Schettino, O Fluminense, Empregos e Negócios

Alguns serviços simplesmente estão deixando de ser procurados pelos mais jovens, apesar da grande importância que representam na economia

Você sabe onde encontrar uma costureira jovem? E um ajudante de pedreiro que esteja interessado em seguir a carreira? Algumas profissões podem estar com os dias contados, caso não seja feita uma grande reforma nas relações de emprego. Não faltam cursos de capacitação – a maioria gratuitos –, mas sim mão-de-obra interessada.

Há mais de uma década, investimentos maciços, públicos e privados, em qualificação profissional, têm sido o carro-chefe das políticas de emprego e geração de renda. Então, a crise agora é outra: os trabalhos manuais, essenciais na economia, não conseguem renovar seus quadros. Os trabalhadores estão envelhecendo e os jovens não se interessam em seguir essas profissões.

“O status menor atribuído a essas profissões está relacionado às representações que nossa sociedade tem delas. Porque aos escravos eram atribuídas as tarefas braçais, o trabalho manual é visto como escravizante, de menor valor e para o qual não é necessária uma formação, visão de que muitos jovens compartilham”, explica Fernanda Delvalhas Piccolo, doutora em Antropologia Social e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Para a mestre, a máxima de que “o trabalho dignifica o homem” parece não encontrar mais ressonância frente aos jovens. “Há uma mudança de valores em relação ao trabalho, o que muitas pessoas chamam de crise dos valores”, diz.

Foi o que Marcel de Paula Luiz, diretor da SOS Computadores de Icaraí, constatou na prática. Ele diz que os jovens faltam às entrevistas e muitas vezes nem aparecem no primeiro dia de trabalho.

Para ele, o problema está na formação, que mudou muito nos últimos 15 anos.

“O jovem que hoje está com 18, 20 anos, não teve criação com disciplina. É muito desinteresse da parte do candidato; chega a ser indiferença. Tanto que, na minha empresa, quando eu encontro alguém com talento, prefiro capacitá-lo, desde que encontre nele disposição para o trabalho”, desabafa.

Costureiras – Há 30 anos no setor de confecções, Rubens Nunes, diretor da empresa de consultoria Megatech, afirma que o setor não se renova por falta de interesse na profissão.
“Antigamente, a mãe levava a filha para ser ajudante e aprender a profissão. Mas a jovem, hoje, prefere ganhar menos e trabalhar no shopping, com ar-condicionado e tranquilidade”, comenta.

A antropóloga da UFRJ completa dizendo que há certos jovens que preferem um trabalho mais estável e ganhando menos. As atividades chamadas dos “eiros” e “eiras” (pedreiros, costureiras) foram substituídas por outras em escritórios ou telemarketing, ligadas às novas tecnologias.

“A remuneração nessas funções, na maioria das vezes, é inferior à dos trabalhos manuais, mas dá ao jovem status. Isso não quer dizer, necessariamente, que eles compartilhem o trabalho como valor”, avalia Fernanda Delvalhas.

Obras – Para o mestre-de-obras Jeovah Januário Tito, há 20 anos na Prescon Engenharia e Projetos, “mão-de-obra é um negócio complicado”. Na maioria das empresas, a contratação de novos pedreiros é feita através de indicações de funcionários “e é muito difícil trazer um jovem para o canteiro de obras”.

O ajudante de pedreiro, de acordo com Tito, tem piso de R$ 719, e o pedreiro profissional R$ 1.053, mais vale-transporte e alimentação no local.

Sentir a vocação é fundamental

Para Thiago Sanderson, coordenador operacional do Serviço Nacional de Empregos (Sine) na Prefeitura de Niterói, o que acontece é resultado de uma ação de qualificação mal direcionada, sem nenhuma preocupação com a orientação vocacional e profissional. Somado a isso, os candidatos não estão preparados para a seleção, causando desistência em etapas decisivas.

A intenção, hoje, é instruir os candidatos para o processo seletivo, preparar para as avaliações, a entrevista, e as dinâmicas de grupo”, completa, e usa o caso do Comperj como exemplo:

“A exposição na mídia criou uma expectativa de vagas na área de petróleo e gás, mas com o crescimento da economia nas regiões do entorno, todos os segmentos de comércio, serviço e indústria serão afetados”.

A Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL) de Niterói, em parceria com a SOS Computadores, tem um programa chamado S.O.S Oportunidades, com teste de aptidão, elaboração do currículo e treinamento para entrevistas.

“O emprego não é mais um valor como antes; hoje é o dinheiro e o que se pode ter com ele. Os jovens passam por um momento de falta de perspectivas”, finaliza Fernanda.