jan 09
1
Letícia Mota, O Fluminense, País
|
A partir de hoje, algumas regras de ortografia que você aprendeu ao longo da sua vida escolar vão mudar. E cuidado, porque com as alterações, por exemplo, quando pedir um pão com linguiça, ele virá sem trema. Quem esquentar o restinho da ceia do Ano Novo no micro-ondas vai ter que levar o hífen junto e os que vão passar as férias na praia com certeza vão pegar um voo sem acento. Essas e outras mudanças na Língua Portuguesa fazem parte do decreto que estabelece a reforma ortográfica no Brasil, que foi assinado no dia 29 de setembro pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A reforma ortográfica vai afetar cerca de 3 mil palavras, o que equivale a 0,5% dos verbetes reconhecidos oficialmente no idioma brasileiro. Entre as principais alterações estão o aumento do alfabeto de 23 para 26 letras, com a inclusão do k, w e y; a extinção do trema; e a criação de novas regras de acentuação.
As mudanças da língua passam a valer a partir de hoje, embora haja um período de adequação às normas até dezembro de 2012. Até lá, as duas formas vão conviver em harmonia e as modificações não poderão ser cobradas em vestibulares, concursos e provas de colégios. Nos livros escolares, a incorporação das mudanças será obrigatória a partir de 2010. Em 2009, podem circular livros tanto na atual quanto na nova ortografia.
A reforma da ortografia pretende unificar o registro escrito nos oito países que falam português – Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor Leste.
Favoráveis ou não às mudanças ortográficas, especialistas são unânimes ao afirmar que as novas regras do hífen são as mais polêmicas e que exigem maior trabalho da Academia Brasileira de Letras (ABL) na implementação do acordo ortográfico.
Crítico da reforma ortográfica, o professor Sérgio Nogueira, que participa do quadro Soletrando do programa Caldeirão do Huck, da Rede Globo, argumenta que agora é hora de enfrentar o problema.
“A essa altura, não tem mais jeito. É inevitável a reforma, então temos de aprender”, afirmou.
No entanto, na opinião de Nogueira, o acordo não servirá para unificar a língua dos oito países que falam português.
“Há diferenças que a reforma não pega, que são os aspectos semânticos e sintáticos”, diz o professor, que completa.
“O pior problema vai ser com o hífen, que já é difícil por natureza. As pessoas não têm conhecimento sobre a regra. Ainda há casos problemáticos e há palavras que têm duas grafias. Tudo isso precisa ser resolvido”.
Alterações
O alfabeto deixa de ter 23 letras para ter 26, com a incorporação do k, do w e do y, e o acento deixará de ser usado para diferenciar pára (verbo) de para (preposição).
O trema desaparece completamente. Estará correto escrever linguiça, sequência, frequência e quinquênio em vez de lingüiça, seqüência, freqüência e qüinqüênio.
As paroxítonas terminadas em o duplo, por exemplo, não terão mais acento circunflexo. Em vez de abençôo, enjôo ou vôo, os brasileiros terão que escrever abençoo, enjoo e voo.
Não se usará mais o acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo ou do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler, ver e seus decorrentes, ficando correta a grafia creem, deem, leem e veem.
Haverá também a criação de alguns casos de dupla grafia para fazer diferenciação, como o uso do acento agudo na primeira pessoa do plural do pretérito perfeito dos verbos da primeira conjugação, tais como louvámos em oposição a louvamos e amámos em oposição a amamos, a eliminação do acento agudo nos ditongos abertos ei e oi de palavras paroxítonas, como assembléia, idéia, heróica e jibóia.
Pontos em aberto – O acordo não define todos os usos de hífens, por exemplo. Assim, palavras como pé-de-cabra, ainda não têm o rumo certo e dependem da elaboração de um vocabulário pela Academia Brasileira de Letras e pelos órgãos dos outros sete países signatários.
Lingüistas enumeram prós e contras
Para o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e autor do livro “Escrevendo pela Nova Ortografia”, José Carlos Santos de Azeredo, o texto aprovado tem um vácuo quando aborda o uso do hífen.
“O acordo não é muito preciso no que diz respeito às formas constituídas de dois substantivos ligados por preposição, como por exemplo a palavra “pé-de-cabra” (nome de uma ferramenta), que, segundo as novas regras, não deveria ter hífen”, diz o professor.
O professor e autor de gramáticas, Douglas Tufano, diz que discorda da necessidade do acordo neste momento, embora algumas mudanças sejam bem-vindas.
“A mudança ortográfica é interessante, na medida em que elimina acentos e facilita um pouco a vida dos alunos. No entanto, há alterações, como a extinção do trema e a eliminação de acentos diferenciais, que irão causar estranheza e uma certa dificuldade no aprendizado de quem está se iniciando na Língua Portuguesa. As mudanças atingem apenas 0,5% das palavras. Acho que os benefícios externos, com relação aos outros países serão menores do que o trabalho de adaptação que isso vai causar à população”, explica o professor.
Douglas Tufano acrescenta ainda que, embora haja um período para adaptação, as editoras devem colocar nas prateleiras, já em 2009, livros com a nova ortografia, o que gera trabalho para os autores e poderá causar prejuízos, com encalhe de edições desatualizadas.



